sábado, 15 de junho de 2013

Resenha: "Capitães da Areia" - Jorge Amado

Capitães da Areia narra, de forma extremamente crua e sem escrúpulos, o dia-a-dia de um grupo de meninos abandonados, que vivia de pequenos furtos, e morava em um trapiche desabilitado num areal, na beira do mar, na cidade da Bahia. O modo como Jorge Amado conta a história nos faz criar certo afeto pelos meninos que não tem destino, crença ou ideologia definidos. Pai, mãe, ou qualquer um que crie e dê exemplo à criança gera nela grande influência intelectual, não definindo, mas dando um caminho à ela para seguir. Mas quem não tem ninguém, apenas outros como si mesmo, fica à mercê da educação das ruas. E é certo que tal educação os leva sempre a tomar decisões instintivamente, a fim de buscar a própria sobrevivência. É o que faz esse grupo de meninos, que descobriram nos furtos, uma maneira de sobreviver. E como não há quem os diga o que é certo e o que é errado, acabam por aceitar qualquer coisa que os mantenha vivos como a coisa certa a ser feita. O autor defende essa maneira de pensar tão arduamente em sua obra, que acaba nos convencendo a vibrar por pequenos ladrões. Coisa que não faríamos se o ponto de vista da obra fosse de qualquer cidadão da cidade da Bahia; os meninos roubavam todos e eram alvos constantes da polícia local. Mas, ao contrário do que custumamos pensar sobre meninos de rua, os Capitães da Areia eram organizados, só roubavam o que comer (e o que não era, vendiam, seja para comprar mais comida ou roupas ou necessidades do tipo) e tinham leis internas; algumas foram citadas: uma que proibia que roubassem uns aos outros e outra que proibia relacionamentos (sexo) entre os integrantes. Inclusive o sexo é explícito no livro, mesmo sendo ainda novos (entre crianças de 6 e rapazes de 16 anos) “conheciam todos os segredos do sexo” como diz o próprio autor. Há passagens que descrevem o que faziam com as negrinhas no areal e inclusive com mulheres mais velhas. Há dois rapazes que chegam a ter relações com mulheres mais velhas. Outros ainda tem relações entre si, mesmo sendo poucos, já que era proibido. Quase todos não tem respeito, tanto que quando vêm um mulher mais “provida”, ficam exaltados e falam para elas o que não deviam falar. Se bem que grande parte dessas mulheres, no livro, gostaram do “elogio” mesmo que xingassem os meninos depois. Acredito que Jorge Amado talvez queira dizer algo com isso, mas não me arrisco a criticá-lo. A história é um amontoado de crônicas que em certos momentos tornam-se uma narrativa. Vão abordar a vida do líder do grupo, Pedro Bala, e os integrantes mais próximos dele, pois são os mais velhos, tem a responsabilidade de ajudar os menores e de certa forma são os que vão protagonizar as aventuras mais intrigantes. Embora conheçam as verdades das quais a maioria dos menores são privados, não é deixado de lado o encanto que há na infância. Em um capítulo, um carrosel maltrapilho chega à cidade e dois dos capitães arrajam emprego lá para descolarem uma grana. Certa noite, convidam o resto do grupo e o padre para se juntarem a eles numa apresentação “exclusiva” (pois ligaram o brinquedo sem que o dono soubesse, depois do parque fechar) e aquilo os embargou de uma maneira tão profunda, que esqueceram de seus problemas corriqueiros, dos maltratos da rua, das dificuldades. Tudo, tudo pra eles, naquele momento, era se encantar pelas luzes e pelo balançar do carrossel. Jorge Amado nos faz ver, que mesmo na confusão e na maturidade adquiridas pelos garotos, ainda há espaço para a magia da infância. Nos faz ver, que mesmo nas maiores tribulações, há sempre tempo para parar e admirar a beleza da vida.

~Rodolfo
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