quarta-feira, 14 de maio de 2014

Resenha: "Todo Dia" - David Levithan

Título Original: Every Day
Autor: David Levithan
Nº de págs: 277
Editora: Galera Record
   Todo dia. A premissa perfeita já está presente no título. “A” não é ele nem ela, é uma “alma” que todo dia é obrigada a viver a vida da pessoa cujo corpo ela habita. Todo dia é exigido dele que se adapte, que não mude nada na vida dessa pessoa e que passe o dia nela sem grandes consequências para o amanhã, quando a pessoa vai estar de volta a si sem nem ter ideia de que algo estava errado no dia anterior. A não tem a menor ideia do porquê ele é diferente de todos os outros, só sabe que essa é sua vida com a qual ele aprendeu a lidar. Nesse processo de adaptação e entendimento, ele criou algumas regras para si mesmo, pois algumas experiências lhe deram alguma lição. Uma delas é nunca se apaixonar porque, afinal, ele nunca pode estar lá no dia seguinte para que se permita ter uma namorada, não é uma coisa possível para ele. Tudo caminha normalmente, A pula de corpo em corpo conformado com suas regras e circunstancias, até que se encontra no corpo de um jovem que não liga muito para a namorada que tem. Aí nosso enredo sofre o pontapé inicial para que fiquemos vidrados no livro: A namorada.

“Em seu coração, em seus ossos, por mais bobo que saiba que é, você sente que tudo levou a isso, que todas as flechas secretas estavam apontando para este lugar, que o universo e o próprio tempo construíram isso muito tempo atrás, e agora você acaba de perceber que chegou ao local onde sempre deveria ter estado” (Levithan)

   A regra de não se apaixonar agora parece completamente boba e inútil perante Rhiannon, a namorada de Justin (O jovem que A está habitando por um dia). A medida que A passa mais tempo com ela, percebe o quanto um ser humano pode ser puro e sensível, sem que ligue somente para coisas materiais, e de repente não consegue suportar a ideia de que no dia seguinte nada mais disso existirá, Rhiannon terá voltado a ser a namorada-objeto insignificante de um Justin que não liga para nada na vida. Eis que A começa sua jornada de tentar, de alguma maneira, manter contato com aquela que tanto mexeu com suas regras e seus propósitos de existência no mundo. 

Estou aprendendo que uma vida não é real até alguém mais conhecer sua realidade. E quero que minha vida seja real” (Levithan)

   “A” foi o nome que o protagonista se deu. Ele não sabe de onde vem nem porque é o que é, portanto não sabe nem se alguma vez foi lhe dado um nome. (Até para que talvez ficasse mais fácil para o leitor de se aproximar do personagem, já que um nome é o primeiro passo para a identificação). A não tem definição de gênero, mas como no Brasil sofremos com a ausência de um pronome que indefine o gênero de alguém, o livro trata o protagonista com pronome masculino.
   Falando no contexto geral, a sinopse já foi o elemento principal para que eu iniciasse a leitura. E como se já não nos sentíssemos atraídos o suficiente pelo livro, não é possível para nós durante a trama bolar hipóteses sobre o final, fica completamente difícil imaginar como a história poderia acabar, talvez por haver muitas possibilidades ou pela falta delas. Até sobre isso é difícil chegar a uma conclusão, porém foi dessa maneira que David Levithan me incitou a prosseguir mais avidamente.
   Algo que não costuma me atrair em alguns livros são os personagens, seja porque eles são muito rasos e planos, seja porque o próprio autor não deu devido mérito a ele durante o livro. Contudo, “Todo Dia” veio para mudar isso, mesmo que por apenas 277 páginas. Quando você imagina ter finalmente chegado a uma lista definitiva com as características de determinado personagem, a narrativa vem com acontecimentos que faz você jogar tudo aquilo fora e começar de novo. Eu achei brilhante esse jeito como somos levados a acreditar que conhecemos o personagem, e, de repente, não conhecemos mais. Em minha opinião, essa oscilação contribui bastante para o fato de o fim ser um mistério para quem lê.
   O livro passa constantemente a ideia de supervalorização das aparências em detrimento ao que realmente somos. Muitas vezes, pessoas camuflam toda sua beleza, sua bondade e caráter sob um pano que elas julgam ser mais “apresentável” perante os outros, quando na verdade não é. O que fica por baixo disso tudo acaba por ser esquecido, contribuindo ainda mais para a superficialidade do mundo em volta. O fato do protagonista A estar em permanente mudança de corpo gera julgamento, pois cada corpo que ele habita acarreta imprescindivelmente influências no que ele é, embora ele ainda seja ele mesmo.
   Hoje em dia vivenciamos muitos casos, seja no meio de convívio, seja na abordagem de filmes e livros, em que o adolescente não se permite ou não lhe é permitido se encaixar, há sempre uma ideia de instabilidade perpetrada pela ideia de que há algo faltando, e Levithan tratou desse assunto em seu livro de maneira singular, nos fazendo enxergar como é ser jovem e não ter certeza de nada, de ter que esperar um novo dia para depois saber como lidar com ele. Descobrir um novo corpo se assimila a necessidade do adolescente de lidar com uma nova avalanche de sentimentos e escolher qual combater primeiro e qual “usar” no dia.
   Enquanto temos a vida de A se desenrolando em nossas mãos, percebemos pequenas coisas –algumas já mencionadas- que realmente nos conduzem a um raciocínio. Uma delas é o desapego material, ou seja, A não leva nada quando muda de corpo e de vida, tudo que ele consegue conservar consigo são as histórias e memórias de todas as suas experiências, e isso é algo extraordinário e suficiente para ele. Ele teve que aprender a conviver com isso, a aceitar que ele não era como os outros, mas também foi o que levou a perceber o quão desnecessárias são as coisas materiais, tão presentes no dia a dia e tão valorizadas por nós.
   O funcionamento da vida de A é meio complexo para nós leitores entendermos, pois há toda uma série de buracos que precisamos ir preenchendo durante a leitura, e muitos desses pontos são questionados pela personagem Rhiannon, portanto é como seu o autor já estivesse ciente que, de alguma forma, ele teria que explicar esse novo mundo para que nada ficasse para trás. E certamente há algumas falhas na explicação como um todo, mas elas são mínimas e a maioria de nossas perguntas é respondida.
   A sacada do autor foi ainda mais incitante no quesito escrita, as frases são muito bem construídas e contem pensamentos muito verdadeiros, aquele tipo que sempre tivemos na cabeça e quisemos passar para o papel, mas nunca encontramos as palavras certas. Na maior parte do livro são períodos curtos e simples, nada tão prolixo que nos percamos durante uma ideia, gostei muito da minha experimentação com David Levithan, mais um para as listas “preciso ler mais desse autor” e “preciso reler este livro”. Enfim, a meu ver, foi uma leitura que poderia ter durado mais que meras 277 páginas e eu não teria percebido, tentei adiar o máximo possível porque a cada capítulo eu não queria que o fim chegasse. Então, a recomendação está implícita, certo? 

“Quando você experimenta algo grandioso, o momento persiste em toda parte para a qual você olha, e quer ocupar todas as palavras que você diz” (Levithan)