quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Cura para ressaca literária, fumaça, ossos e cabelos coloridos

Resenha de "Feita de Fumaça e Osso", de Laini Taylor


Em janeiro de 2014 li um livro que sem sombra de dúvida pode ser considerado bom. Tão bom que me causou uma leve ressaca de TRÊS meses. Sim, durante todo esse tempo eu fiquei sem ler nada. O livro em questão é A Batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr, e se você nos acompanha - e caso não, deve começar já - conhece todo o meu apreço por esse livro.
Odeio ressacas. São um período sombrio de nossas vidas onde nada nos agrada e nada é bom o suficiente. Eu comecei a ler alguns livros para tentar me livrar dela, mas resultou apenas em mais livros abandonados. Sentia-me horrível, achei que nunca mais fosse conseguir ler e que meu melhor gosto, que é a leitura, tinha se perdido.
Até que, em certa noite, totalmente desenganado, resolvi tentar Feita de Fumaça e Osso.
Então minha vida mudou.
Sabe-se que para sair de uma ressaca, é preciso encontrar algo tão bom ou até melhor que a experiência anterior para que se possa sair, portanto já pode-se tirar certa conclusão sobre o naipe desse livro.




Título original: Daughter of Smoke & Bone
Autora: Laini Taylor
Número de páginas: 382
Editora: Intrínseca





Feita de Fumaça e Osso tinha vários elementos de A Batalha do Apocalipse: um mundo caótico, secreto, com criaturas imaginárias e, principalmente, anjos. Antigamente eu julgava banais histórias que envolvessem o sagrado e o angelical, contudo, esses dois livros mudaram minha visão. A mitologia no romance de Laini Taylor - autora do livro e que receberá melhor atenção mais pra frente - é despreocupada em relação à padrões. É totalmente inovadora e conta com muitos elementos originais. O universo secreto é divido entre anjos e quimeras. Anjos são anjos, exatamente como você imaginou: bons, fortes, belos e determinados. Quimeras são seres bestiais, com suas inúmeras raças e distinções, e, essencialmente, antagonistas aos anjos. E é aí que está o ponto: a oposição. Laini criou um enredo sensacional apenas para contrapor lados e, acima de tudo, expor perspectivas.
Vou explicar isso melhor falando um pouco sobre a história em si. Karou é uma garota aparentemente normal, se você não olhar para seus cabelos que nascem exuberantemente azuis, e sem contar que ela mora com três quimeras os quais chama de família. Ela foi criada por eles desde que se lembra por gente e diga-se de passagem, com certo amor, então são bem próximos de pais para ela. Karou tem apenas um dever, além dos que a escola comum a engaja, caçar e recolher dentes. Sim, dentes, aquele pedaço de osso que fica dentro das bocas para auxiliar na mastigação. O motivo? Só no fim do livro. E só isso já um grande motivo para prosseguir com a leitura.
Karou levava sua vida "normal" até que se depara com um anjo e então fica cara-a-cara com a aberração que sua família tanto detesta.
Há, obviamente, uma grande aproximação em Karou e Akiva, o anjo que ela encontrou, e ambas as culturas, angelicais e bestiais, são absorvidas por Karou, e sua vida se tranforma em um caos. Um caos bom, caos legal, que nos empurra até as últimas páginas do livro.
Esse contraste que nos é apresentado pelos lados antagônicos da história é evidenciado em dois capítulos que contam duas diferentes lendas sobre a criação do mundo. Uma é de origem angelical, a outra, quimérica. Essa oposição é extremamente educadora, com ela, podemos tirar grandes lições para a vida, lições que nos ensinam a parar, obervar, pensar e tirar nossas próprias conclusões sem a influência de terceiros.
E ainda há quem diga que livros jovem-adulto são inúteis.

"-Esperança? A esperança pode ser uma força poderosa. Talvez não haja magia real nela, mas, quando você sabe o que mais deseja e mantém isso aceso como uma chama dentro de si, pode fazer as coisas acontecerem, quase como mágica."

Quem conhece o livro e nunca viu uma foto da autora, aqui está uma dela para você se espantar, ou amar enormemente. Quando vi Laini pela primeira vez, pensei: "Oh meu deus, o cabelo dela é rosa! E olha a fisionomia dela, parece ser muito simpática! Ela deve ser muito boa."

Laini Taylor e seu cabelo discreto

Hoje tenho certeza. Ela é boa. Sua escrita é linda, e por muitos considerada poética. Há uma beleza incomum estampada em suas palavras e suas invenções e escolhas só ressaltam isso. Para se ter uma ideia, a cidade humana escolhida é Praga, capital da República Tcheca, e não estranharia caso me dissesse que não conhece essa cidade. Estamos tão acostumados com epicidades acontecendo em Nova Iorque ou Londres, que esquecemos do resto do mundo. Laini quis inovar, e conseguiu. Feita de Fumaça e Osso é altamente recomendado, portanto, não perca seu tempo e leia já.

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